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15 de out de 2010

De bem com a crise

A palavra crise, na língua chinesa, é a junção de dois ideogramas representativos de outras duas palavras: perigo e oportunidade. Desse modo, uma crise não é necessariamente boa ou ruim. Ela é perigo e oportunidade, porque traz em seu bojo o desafio inerente a uma situação de mudança. A nossa atitude face à crise é que determinará o resultado que obteremos na vida, de bom ou de ruim, a vitória ou a derrota, o sucesso ou o fracasso.

A palavra crise é uma velha conhecida no mundo e todas as línguas procuram dar-lhe uma definição. A maioria dos brasileiros talvez sequer saiba defini-la, mas sabe na prática principalmente sobre os seus custos. Em um plano mais amplo, muito já se falou em diversos tipos de crises: econômica, política, de moralidade, de ética etc.

Em termos pessoais, há as crises nossas de cada dia, quer se trate das constantes adaptações da nossa personalidade ou dos turbilhões que enfrentamos na busca de um lugar ao sol. Assim, pode-se facilmente intuir que crise é uma manifestação violenta e repentina de ruptura do equilíbrio; é também um estado de dúvidas e incertezas, de tensão e conflito; é uma fase difícil e grave na evolução das coisas, dos fatos e das ideias. Isso faz com que a presença da crise tenha uma enorme capacidade de incomodar.

Mas como devemos nos comportar em relação à crise?

Há pelo menos cinco comportamentos humanos numa situação inerente a uma crise.

Há os que veem a crise como uma catástrofe, como decomposição e o fim da ordem e da continuidade. Para esses a crise é algo anormal que devemos evitar a todo custo. São os catastrofistas.

Há os que se dão conta da crise, mas, em vez de explorar as forças positivas contidas nela, fogem para o passado, numa tentativa de imitar e reconstituir os costumes, as categorias de pensar e a vida do passado. São os arcaizantes.

Há os que tentam resolver a situação de crise fugindo para o futuro. Eles se situam dentro do mesmo horizonte que os arcaizantes, apenas no extremo oposto. São os futuristas.

Há os que tentam resolver a crise escapando dela num processo de interiorização; até se dão conta das nuvens negras no horizonte, mas fazem ouvidos moucos. Evitam o confronto, preferem não saber, não ouvir, não ler e não se questionar. Querem permanecer no seu pequeno mundo. São os escapistas.

Como se vê, todos esses comportamentos, em menor ou maior grau, são reprováveis.

Mas, felizmente, há aqueles que veem na crise uma chance de uma nova vida. Buscam tematizar as forças positivas contidas na crise e formulam uma resposta integradora das várias dimensões da vida. Não rejeitam o passado, mas buscam aprender dele como um repositário das grandes experiências humanas; e não se eximem de continuar experimentando. Todo valor, donde quer que venha, é apreciado como tal e deverá ajudar na formulação de um modelo de vida que possa ser vivido e tenha a chance de levar a história adiante e dar sentido à vida. Esses são os responsáveis.

Não sei onde o leitor se situa nessas conceituações, mas esses comportamentos podem ser vistos principalmente em relação aos atuais problemas políticos nacionais.

Os catastrofistas acham que está tudo apodrecido, que ninguém presta, que todos os políticos são ladrões e corruptos.

Os arcaizantes preferem pensar que é melhor sentir “saudades do Sarney” do que tentar mudar o que precisa ser mudado.

Os futuristas continuam a teimar que o Brasil é o país de um futuro que nunca chega.

Os escapistas preferem não votar, não participar, não escolher, para não se comprometerem.

Os responsáveis são os que estão tentando passar o Brasil a limpo. Não me refiro às “ex” (secretárias e esposas) ou aos flagrados em corrupção que, por se sentirem preteridos, dão com a língua nos dentes, embora isso acabe ajudando. Refiro-me, sim, aos que estão denunciando os corruptos e punindo os criminosos, lutando de algum modo para termos um país melhor.

Na verdade, ninguém pode negar que, na vida, os momentos mais significativos são precedidos por crises. Mesmo que seja difícil perceber a sua utilidade imediata, a crise, uma vez superada, é uma passagem inevitável e obrigatória para o sucesso.

Os que creem em Deus e na Bíblia sabem que a esperança cristã apresenta um quadro futuro de superação de todas as crises. Paulo afirma: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28).

Por isso, eu continuo orando e jejuando, acreditando que o Brasil tem jeito, e que o melhor ainda está por vir.

Samuel Câmara
Pastor da Assembleia de Deus em Belém
E-mail: samuelcamara@boasnovas.tv

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